segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Abusado - O traficante ou o Estado?


Bom, acabei de ler o livro "Abusado - O Dono do Morro Dona Marta" de Caco Barcellos e dentro de todas as impressões que poderia estar passando no post, o que me impactou mais foram as histórias com teor cinematográfico e que impressionam por serem reais, vividas por homens e mulheres cujo componente básico para a vivência é a ausência do Estado em suas atribuições do artigo 5° da constituição. Fico pensando se as aspirações do Marcinho VP vulgo Juliano fossem levadas a cabo pelo Comando Vermelho que preferiu ser apenas um varejista de drogas e financionadores de armas contrabandeadas. Penso se o Marcinho VP convencesse os dirigentes do CV a seguirem algo parecido com Movimento Zapatista Mexicano, o que poderia ser o Brasil e as periferias brasileiras ein? Bom, deixo o livro para download e um texto da Revista Época sobre o mesmo. Ressalvas para a Época, integrante do PIG ( Partido da Imprensa Golpista).



Radiografia do tráfico
Caco Barcellos conta a vida do Robin Hood do pó no Morro Dona Marta e revela como sua quadrilha nasceu
ANTONIO GONÇALVES FILHO


A biografia de Marcinho VP não é a história do famoso traficante carioca. Por paradoxal que pareça, o livro Abusado, do repórter Caco Barcellos, que será lançado nesta segunda-feira no Rio de Janeiro, não pretende, segundo o autor, contar a vida de Márcio Amaro de Oliveira - o 'dono do Morro Dona Marta', segundo o subtítulo da reportagem, que consumiu quatro anos de trabalho do correspondente da TV Globo em Londres. No livro, Marcinho VP é chamado de Juliano. Poderia ser Fernandinho ou Zequinha. Caco optou por um codinome não por medo de ameaças, mas para ser justo. Afinal, a história de Marcinho VP não difere muito da vida de milhares de outros Marcinhos e Julianos que neste momento estão sendo aliciados nas favelas brasileiras para servir de 'aviões' - entregadores de droga, na gíria dos traficantes.

Preso em Bangu 3, no Rio, e condenado a mais de 40 anos de reclusão, Marcinho VP criou fama como o chefe do tráfico carioca que incorporou a retórica de guerrilheiro social, mergulhou na leitura do existencialista Albert Camus, permitiu a gravação de um clipe do cantor Michael Jackson na favela Santa Marta e ficou amigo do cineasta João Moreira Salles. Um dos herdeiros do Unibanco, Salles rodou o documentário Notícias de uma Guerra Particular no morro. Chegou a dar mesada para o bandido abandonar o tráfico e escrever um livro contando sua história. Caco não chegou a tanto, mas também virou interlocutor de Marcinho VP. Viu o traficante pela última vez em Buenos Aires há quatro anos, justamente quando ele, foragido, vivia com o dinheiro da 'bolsa' de R$ 1.200 mensais, concedida em troca da autobiografia. O livro do traficante não saiu do esboço, para desapontamento do cineasta, mas Abusado assume a tarefa de contar seu ingresso e sua ascensão no mundo do tráfico, revelando ainda como se formaram sua quadrilha e a facção criminosa Comando Vermelho, que tomou conta do Morro Dona Marta.

Filho de família nordestina que migrou para o Rio, Marcinho VP, de 33 anos, estudou até a 5a série do ensino fundamental, virou surfista na Praia do Leme e, como todo garoto de favela, cansado de ver tênis de grife em pés alheios, decidiu trocar os livros por um revólver. Conseguiu até namorar meninas ricas que, dispostas a uma transa interclassista, fingiam ignorar sua condição de favelado. Elegendo como herói o subcomandante Marcos, do mexicano Exército Zapatista de Libertação Nacional, o traficante pretendia liderar o Movimento Social Revolucionário pela Favelania - mistura de favela e cidadania, segundo o neologismo que criou ou tomou emprestado de um estudante de teologia. Começou pelo Morro Dona Marta, uma comunidade de 12 mil habitantes que ainda vive sob o domínio do medo a menos de 300 metros da prefeitura carioca. A pretensão de Marcinho VP acabou em Bangu 3, acusado de tráfico, homicídio e corrupção de menores, aliciados como 'aviões'. Mas sua história não pára por aí. Curioso para saber como ela termina, o traficante telefonou para Caco da prisão, no Natal, e perguntou como andava o livro do repórter.

O autor nem precisaria revelar a conclusão dessa vida bandida. A palavra 'morte' é repetida no livro com a mesma freqüência com que Juliano invoca a ajuda de Santo Expedito, o guerreiro milagroso, nos momentos de perigo. 'Ele sempre carrega imagens de santo', lembra Caco, relacionando sua ação 'missionária' de líder comunitário à equivocada forma com que o traficante absorveu o discurso da igreja progressista, cujo papel de evangelização, no Morro Dona Marta, foi além do mero catecismo.

Numa carta aos dirigentes do Comando Vermelho, reproduzida no livro, Juliano posa de 'pai dos órfãos', o messias da comunidade. 'Não tô nisso por poder ou dinheiro', escreve o Robin Hood do pó, recorrendo a uma sintaxe miserável como a vida dos favelados. Caco não censura nem glamouriza o traficante. Sabe que muitos dos 'órfãos' das favelas cariocas foram torturados ou mortos por seus pares por ignorar as leis do tráfico - as punições por perda de dinheiro ou mercadoria vão do espancamento à morte. Da mesma forma, o repórter nunca se omitiu quando a polícia cometeu esses mesmos crimes. Exemplar é o caso de Fernando Ramos da Silva, um dos personagens de seu polêmico livro Rota 66. Nele, Caco afirma que o astro do filme Pixote, de Hector Babenco, foi acuado e morto por policiais sob uma cama, em 1987, aos 19 anos, sem possibilidade de reação.

Publicado há 11 anos, o livro que denunciou os métodos de extermínio da Rota rendeu vários processos ao autor. Ele foi perseguido por policiais e obrigado a sair do país por algum tempo. 'Abusado não omite nome de traficantes e homens da lei por medo, mas para preservar a segurança dos familiares dos proscritos', adverte. 'Foi por meio de uma relação de confiança que cheguei aos chefes do tráfico.'

Caco diz que escreveu o livro porque os jovens do morro sabem tudo sobre a vida na cidade, enquanto os garotos do asfalto ignoram o que se passa na favela. Criado num bairro pobre chamado Partenon, em Porto Alegre, o premiado repórter conhece bem a realidade dos deserdados. A exemplo dos favelados que retrata, viu seu 'pai herói' trabalhar durante 50 anos 'por um salário indigno'. Pelo menos um dos amigos de infância tornou-se assaltante e foi morto pela polícia. Caco manteve distância do mundo marginal, mas a carreira de repórter o reaproximou dele.

Com Abusado, ele mostra que a cultura de um dos povos mais violentos do mundo está mudando. Para pior. 'A idade dos autores de crimes no tráfico caiu bastante e a perversidade das execuções aumentou.' Antes de aprender a somar, esses meninos aprendem a subtrair - os próprios companheiros de jornada. 'É uma herança do Esquadrão da Morte', analisa Caco. Triste legado o deles.



Baixa o livro ae



Nenhum comentário:

Postar um comentário