quarta-feira, 21 de março de 2012

DISPUTAS E TECNOLOGIAS NO RAP

Por Arthur Moura

O mercado ao mesmo tempo em que aumenta a velocidade das mudanças tecnológicas também barateia o custo para quem deseja adquirir equipamentos que a indústria e o comércio consideram defasados. 
Na verdade, grande parte dos artistas cariocas e paulistas gravaram suas primeiras experiências sonoras com equipamentos caseiros, baratos e que, conhecendo as possíveis limitações técnicas do seu produto, articularam formas para driblar essa aparente desvantagem que estavam inicialmente transformando a escassez em linguagem atraente. 
A ressignificação do processo de produção baseado em equipamentos precários fora uma importante saída que permitiu que diversos artistas obtivessem êxito em suas primeiras experiências sonoras. Não que hoje, dez, vinte anos após esse boom tecnológico, as coisas estejam caminhando para mudanças tão radicais. 
Mas os equipamentos de outrora já caíram em desuso pela desnecessidade de se investir numa linguagem tosca. Ou seja, o que antes funcionou como alavanca de ideais hoje encontra-se em desuso pela construção de um novo ideal. Esse processo inicial faz parte da memória dos rappers de quinze anos atrás que usam da escassez para legitimar suas conquistas de hoje e se vangloriar pelo patamar que se encontram. 
A escassez de ontem contribuiu então para o acúmulo de capital simbólico para os que ainda se mantém no cenário hip hop. Ainda que o processo de inserção dos grupos de rap tenham caminhado pelo terreno da escassez, hoje estes mesmos grupos não favorecem mais quem arrisca começar da mesma forma. 
Ou seja, aqueles que outrora negavam boa parte das intempéries tecnológicas regidas por um mercado capitalista global, ao se fazer valer de alguma forma no mercado, readaptam o seu discurso agora com acesso aos meios de produção menos modestos para evitar o choque com os interesses dos que hoje pretendem angariar público. 
Dessa forma o discurso do capital vem ajudar no processo de exclusão de possibilidades mercadológicas. O estranho não é mais bem vindo. A experimentação tampouco. As linguagens tornam-se rígidas, e a tecnologia por não estar contemplando à todos torna-se uma aliada dos que tendem a fechar as possibilidades de novos grupos que desejam se inserir na cena. Esse mecanismo não é algo pronto, finalizado. 
Ele é sacralizado em confluência com o espetáculo. É com o estancamento das liberdades intelectuais que nasce boa parte das possibilidades de sucesso do “um só caminho”, “A Rua é Noiz” e “Vida Loka”, por exemplo. A ferramenta que congrega as principais seguranças da ideologia é a sacralização. 
O discurso, por sua vez, torna-se um equipamento da manutenção da sacralidade. Assim, fica mais fácil, por exemplo, espetacularizar a sacralidade.

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